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O compositor alemão Ludwig van Beethoven em 1804. |
Em 1803, com apenas 33 anos de
idade, o jovem e impetuoso Ludwig van Beethoven começou a escrever a sua “Sinfonia
nº 3, em Mi Bemol Maior” (Op. 55). Essa composição assinalava a assunção de uma
temática grandiloquente, épica, em sua obra. Ademais, é apontada por muitos
musicólogos como o umbral de passagem do Classicismo para o Romantismo na
história universal da música.
Tomado por uma fúria criativa, Beethoven
finaliza a escrita da partitura da “Sinfonia nº 3” em 1804. Politizado,
decidira alcunhá-la de “Sinfonia Bonaparte”. Seu propósito era homenagear o
líder político e militar francês Napoleão Bonaparte (1769-1821), já que o
compositor alemão era admirador fidedigno do ideário da Revolução Francesa.
Para o jovem Beethoven, Napoleão não apenas erguia a bandeira do pensamento francês
revolucionário; ele próprio personificava-a. Assim, no verão de 1804, comunicou
ao seu editor a decisão de dedicar a sinfonia ao líder francês, intitulando-a
de “Bonaparte”.
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O líder político e militar francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). |
Entretanto, naquele mesmo ano, quando seu
assistente contou-lhe que Napoleão havia se autoproclamado “Imperador da França”,
o jovem Beethoven, que sempre teve um temperamento explosivo, mudou bruscamente
de opinião. Sentindo-se traído politicamente, o compositor acusou
Napoleão de trair os ideais revolucionários, rendendo-se ao jugo opressor dos
tiranos que se consideravam superiores, que não acreditavam,
portanto, na igualdade de direitos do homem e do cidadão.
Furibundo, Beethoven vai até sua mesa de
trabalho, convicto em desfazer a homenagem ao traidor. Abre o manuscrito da
sinfonia e risca o nome “Bonaparte” da página-título. Mas risca com tanta raiva
- com tanta força, com tanta fúria! - que, no lugar da dedicatória, deixa um buraco no papel.
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Manuscrito da página-título da "Sinfonia Eroica", onde se pode notar o buraco deixado no papel pela fúria de Beethoven diante da "traição" de Napoleão Bonaparte. |
Tempos depois, já em 1806, quando a
página-título foi reescrita e o manuscrito sinfônico finalmente publicado,
Beethoven deu novo nome à obra. Com efeito, intitulou-a de Sinfonia eroica, composta per festeggiare il sovvenire d'un grand'uomo.
O título era uma alusão clara à decepção política experimentada pelo compositor,
que não mais homenageava Napoleão Bonaparte, mas sim se prostrava a celebrar a “memória
de um grande homem”. Napoleão ainda estava vivo na França, só não para Beethoven,
que o considerava um traidor e antecipara visionariamente a marcha fúnebre do
líder francês no segundo movimento da “Sinfonia nº 3” – agora denominada “Sinfonia
Eroica”.
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