Em 1995, numa pequena cidade sita ao sul de
Louisiana, um crime chocante acontece. O corpo de uma mulher é encontrado numa
área de fazenda. Nua, prostrada defronte de uma árvore com os olhos vendados e
as mãos amarradas, ela ostenta uma coroa de chifres de veado sobre sua cabeça.
Seu abdômen exibe múltiplas perfurações com faca. No dorso, há o desenho do que
parece ser um símbolo satânico.
Os detetives Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Martin Hart (Woody Harrelson) são designados pelo Departamento de Investigação de Homicídios da Polícia do Estado de Louisiana para acompanhar o caso. No curso das suas investigações, a vítima é identificada como Dora Lange, uma prostituta que trabalhava na região. Ocorre que esse não parece ter sido um assassinato isolado, pois as circunstâncias remetem ao caso de Marie Fontenot, uma garotinha desaparecida alguns anos antes. E assim tem início a perseguição do que parece ser um serial-killer que mata suas vítimas com requintes de crueldade em rituais macabros.
Esse é o mote que conduz a trama da primeira
temporada da série de TV True Detective (EUA,
HBO, 2014). Como se percebe, ele não é muito diferente da quase totalidade das narrativas
policiais disponíveis em livros, em filmes ou mesmo em outras séries produzidas
para a televisão. Na verdade, originalidade não parece ter sido a preocupação
de criador Nic Pizzolatto. Ele não se acanha em lançar mão dos clichês mais batidos
do gênero: a relação conflituosa entre a dupla de policiais, um dos quais é um
sujeito com grave defeito de caráter, enquanto o outro amargura uma vida
particular desastrosa; a interferência da chefia do Departamento Policial no
curso das investigações, atrapalhando-a, premida pela iniciativa política de líderes
religiosos poderosos da região, preocupados com o pânico causado pela ameaça de
um serial-killer adepto de alguma
seita satânica.
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Matthew McConaughey e Woody Harrelson em cena de "True Detective". |
O que faz de True Detective, então, a melhor produção para a TV no ano de 2014?
Simples: a solidez do roteiro, capaz de dar uma profundidade inesperada a
clichês incessantemente esclerosados dentro do gênero policial.
Por mais de uma vez tenho escrito que o
problema com uma obra não são os clichês dos quais o criador apropria-se. Tudo
o que importa é o que se faz deles no desenvolvimento de uma história. Com
talento, é possível usar de arquétipos repetitivos e, ainda assim, criar
entretenimento da mais alta qualidade.
Com True
Detective, Pizzolatto prova isso. Os detetives Cohle e Hart não são apenas
dois parceiros a chocar-se em seus métodos de trabalho; são o espelho forçado
um do outro dentro de uma sociedade terrivelmente hipócrita.
Rust Cohle é um sujeito solitário, de poucas
palavras, que quase nunca fala de si próprio. Sabe-se apenas que cresceu no
Alaska, trabalhou no Texas, de onde foi transferido para Louisiana. Vive atormentado
pelo passado, machucado pelo fim do seu casamento após a morte de sua única
filha. Viciado em remédios, bebida e cigarro, costuma ver “fantasmas”, ter “alucinações”.
Ateu convicto de postura misantrópica, tem uma péssima relação com seus
colegas policiais. Em resumo: ninguém gosta dele - nem ele próprio.
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Matthew McConaughey e Woody Harrelson em cena de "True Detective". |
Já Martin Hart é o seu oposto. Sorridente,
cultiva amigos por onde passa. Bem relacionado no Departamento, ocupa um posto
de chefia na Divisão de Investigações. É o típico homem do interior sulista conservador: crente em Deus, cultiva uma aparência de
respeitável pai de família, a sustentar um casamento aparentemente bem sucedido com uma linda
esposa.
Nesse sentido, Pizzolatto poderia ter-se limitado
à obviedade de conduzir as suas personagens em conflitos previsíveis,
ao passo em que perscrutam pistas para encontrar o assassino. Mas True Detective destaca-se de outros
seriados ao optar pela lógica da desconstrução de estereótipos. E é isso que o torna
um programa excepcional.
Ao longo dos oito episódios que compõem a
primeira temporada, o telespectador vai-se defrontando não apenas, como seria esperável,
com as anormalidades nefandas de um maníaco assassino cruel e excêntrico,
ligado a um ente demoníaco chamado “O Rei Amarelo” (Pizzolatto usa como referência
a peça ficcional que permeia a coletânea de contos sobrenaturais “The King in Yellow”,
publicada em 1895 pelo escritor estadunidense Robert W. Chambers). Na
realidade, a condução da trama alterna passado e presente, de modo que a busca
pela identidade do criminoso serve como pretexto para uma percuciente investigação acerca das virtudes
e falhas de caráter de Cohle e Hart. Dessa maneira, a personalidade de cada um dos
detetives põe-se a desnudo.
A falta de meritocracia do sistema de justiça
criminal é manifesta. Não obstante ocupe uma posição de chefia na Divisão, Hart
é indolente para o trabalho e conformista, a comprovar que seu realce dá-se menos
por sua competência ou dedicação ao serviço que por suas boas relações em
sociedade. Enquanto o execrável Cohle (ateu e misantropo) faz às vezes de um
homem isolado, obcecado pelo trabalho, sempre insatisfeito, atento aos
menores detalhes, a burilar indícios que o coloquem no encalço do assassino, o exemplar
pai de família cristão Hart gasta suas noites a beber e trair sua esposa. No
dia seguinte, sem a menor condição de trabalhar, sustenta-se nas costas de
Cohle, a quem acusa - ironicamente – de viver uma vida “anormal”, sem escusar a
ideologia contestável de quem “trai para o bem do casamento”. Questiona-se assim a
hipocrisia de uma sociedade machista e conservadora, que condena o workhalolic Cohle – pelo seu ateísmo
resiliente e aversão às pessoas -, ao passo que idolatra a irresponsabilidade e falta de integridade de um adúltero contumaz e
policial incompetente como Hart, projeto fracassado e hipócrita do american way of life.
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Matthew McConaughey interpreta o detetive Rust Cohle em "True Detective": melhor atuação da sua carreira. |
Quem é “normal” nessa sociedade? E quem é “anormal”?
Quem está apto a apontar o dedo no rosto do outro? Quão doentia pode ser a
nossa sociedade? Quem é afinal o animal mais cruel?
Dilemas morais como esses são jogados a todo
o momento na cara do público. Supõe-se um típico jogo policial de “cão e
gato”, mas o telespectador vê-se aprisionado pelo questionamento impiedoso das falhas de caráter
escondidas no passado de cada um de nós - e que são responsáveis, em larga medida, por moldar-nos no presente.
Naturalmente as ações morais controvertíveis
das personagens adquirem credibilidade graças à direção primorosa de Cary Joji
Fukunaga, a produção irretocável proporcionada pelo canal HBO, além do elenco afiado,
nomeadamente Woody Harrelson (um ator limitado, que tem no currículo porcarias
como “Zumbilândia”, surpreendentemente bem no papel) e Matthew McConaughey
(naquela que pode ser considerada a melhor interpretação da sua carreira, a consagrá-lo definitivamente como um dos grandes atores da sua geração).
Com True
Detective, a TV prova mais uma vez que a combinação de liberdade criativa e
orçamento amplo podem proporcionar entretenimento ao nível da arte (para o desgosto
dos cultores do bom cinema, que veem os estúdios cada vez mais atados à lógica
dos blockbusters descerebrados, que, no
afã de fazer centenas e centenas de milhões de dólares, apelam ora para roteiros
de cropologia, ora para os piores lugares-comuns da falta de inteligência do
público que paga para ver um diretor anódino conduzir atores medíocres em cenas
de puro CGI). E Nic Pizzolatto desponta não apenas como um dos melhores
roteiristas da atualidade, mas como o autor de uma façanha notável para um
estreante: a criação de um clássico instantâneo do gênero policial na TV.
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