À época do seu lançamento, não foram poucos
os críticos que se apressaram a apontar “Gravidade” (Gravity, 2013), do diretor mexicano Alfonso Cuarón, como uma
obra-prima. Impressionados pela técnica cinematográfica apurada com que a
película é conduzida - notadamente em destaque os belos e longos planos-sequência
-, a recepção da crítica não poderia ser ter sido mais positiva. Não citarei a premiação do Oscar, pois não levo a sério esse
prêmio. Para mim, a “festa do Oscar”, embora possa vez ou outra acertar nas estatuetas
que entrega, não passa de uma convenção da indústria hollywoodiana criada para
exaltar celebridades e tudo que não importa para a sétima arte (fofocas sobre vestidos, piadas sem
graça, musicais constrangedores, discursos patéticos, puxa-saquismos de todo
tipo etc).
Pois bem. Após assistir ao filme, a impressão
que tive foi a de decepção. Mas não pelo motivo apontado comumente pela crítica:
o roteiro com uma trama linear e de final previsível. A meu sentir, tal aspecto
não impede a excelência da proposta. A criatividade da história, o ineditismo
do tema abordado, a imprevisibilidade do seu encerramento não asseguram de per
si a qualidade da obra. Tudo depende da maneira com que ela é conduzida pelo
diretor. Aí sim se poderá falar em êxito ou fracasso artístico.
O que me incomoda num filme como “Gravidade”
é observar o brilhantismo da direção, capaz de proporcionar ao espectador planos-sequência belíssimos, ser prejudicado por um roteiro de
diálogos pobres, superficiais, quase a sucumbir ao pasticho da autoajuda.
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Sandra Bullock e George Clooney em cena de Gravidade (2013). |
Com efeito, na trama que une a cientista Ryan
Stone (Sandra Bullock) ao veterano Matt Kowalsky (George Clooney) o que sobra em tensão falta em densidade dialógica. A luta
angustiante e desesperada dos astronautas pela vida no espaço sideral, ante a ameaça
proporcionada pelos detritos oriundos da explosão de um satélite, sofre com os
diálogos fracos das personagens. Há momentos divertidos, como quando Kowalsky
faz gracejos com os “olhos azuis” que não possui, de modo a evidenciar o nervosismo de Stone. Mas, no geral, a técnica
primorosa do diretor perde-se na tentativa de converter o esforço hercúleo da cientista que luta pela sua vida numa metáfora universal de "tudo posso, vá em frente, você é capaz". Sobretudo depois que Kowalsky
desaparece no horizonte, a protagonista, ao invés de crescer dramaticamente,
diminui à medida que se aproxima mais e mais das lições convencionais de filmes
feitos para inspirar o desejo de “superar as dificuldades” no grande público.
Nesse sentido, é simplesmente inaceitável que
o diretor tenha incluído uma cena boba como a do delírio da personagem
principal. Stone, após vencer obstáculos inimagináveis, vê-se vencida diante da
morte, já desistente, ao notar que o módulo da estação espacial que habita encontra-se
sem combustível. Eis que surge Kowalsky novamente. Adentra a espaçonave e dá
uma baita lição de moral na cientista. Pior. Entrega-lhe a "chave" da esperança
ao lembrá-la de propulsores não acionados. É como se Stone fosse uma lutadora
de artes marciais prestes a ser derrotada e se recordasse do golpe fatal que
seu mestre lhe ensinara durante o treinamento. E é assim que “Gravidade”
de Cuarón encontra-se no espelho de algo tão medíocre quanto um desses “Karate
Kid” da vida. Nesse ponto, o filme já despencou de vez.
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Sandra Bullock em cena de "Gravidade" (2013) |
Visto desse prisma, é de se lamentar que os méritos técnicos do
filme percam-se paulatinamente na superficialidade de um roteiro que tenta
criar o que chamarei de “autoajuda espacial”. Mesmo atores medíocres como
Sandra Bullock e George Clooney não são o problema (antes o contrário, estão
muito bem em seus papéis, o que é mais uma vez fruto da competência do diretor, que
soube extrair o melhor de atores sabidamente limitados). O principal defeito do
filme reside noutro aspecto: a falta de coragem da direção em priorizar a angústia
diante da morte, a enfatizar a grandeza do espaço e, sobremodo, o silêncio. No
espaço sideral, nada é mais aterrador que o silêncio. No “Gravidade” de Alfonso
Cuarón, no entanto, esse ambiente silencioso cede diante das convenções
industriais, claramente plantadas no roteiro para torná-lo mais “palatável” ao
grande público. Converte-se., desse modo, em algo próximo a um inspirador blockbuster de
ação espacial. Só assim se justifica a inserção no filme de diálogos tão tolos. A
rigor, a covardia artística de Cuarón impediu-o de trilhar o caminho intrépido
que Stanley Kubrick empreendeu em seu “2001: uma odisseia no espaço” (2001: A Space Odyssey, 1968) ou Andrei Tarkovski no seu "Solaris" (Solaris, 1972).
De qualquer modo, é um alívio a assistir a um
filme (muito acima da média, ressalto) como “Gravidade”, que situa sua trama no espaço sideral desde uma
perspectiva mais realista; um ponto de vista, digamos assim, mais científico. Alívio, porque já se
tornaram insuportavelmente repetitivos os filmes que, no afã de ganhar
dinheiro, apelam para a fórmula de sucesso garantido da ficção científica
infantilizada da franquia “Star Wars” (o sucesso estrondoso do recente “Guardiões da
Galáxia”, de James Gunn, esta aí para provar que a reciclagem das personagens
criadas por George Lucas ainda rende muito aos estúdios). Só lamento que a
ousadia técnica de “Gravidade” acabe eclipsada por um roteiro prenhe de
diálogos bestas, que beiram a autoajuda do espaço. Algo absolutamente desnecessário
num filme que poderia se sustentar naquilo que tem de mais fascinante: a fragilidade
da vida diante das inóspitas condições espaciais. Uma pena, portanto, que tamanho potencial tenha sido desperdiçado.
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