Em 2012, dias antes de sua formatura, a
estudante estadunidense Marina Keegan publicou um ensaio no jornal Yale Daily News
chamado “O oposto da solidão” (The
Opposite of Loneliness). O texto havia sido escrito qual uma espécie de
despedida da graduanda da Universidade de Yale (EUA). Por isso seu traço
distintivo é a nostalgia típica de quem, ao completar sua formação
universitária, também encerra um ciclo de vida.
Keegan inicia sua exposição de ideias com uma
provocação instigante:
Nós não
temos uma palavra para o oposto da solidão, mas, se tivéssemos, eu diria que é
aquilo que eu quero na vida. É o que sou grata e agradecida por ter encontrado
em Yale, e o que eu tenho medo de perder quando acordar amanhã e deixar este
lugar. [1]
A seguir, ficamos sabendo que a convivência
universitária no campus com os outros estudantes é aquilo que a autora considera
“o oposto da solidão”:
Não é exatamente amor e nem comunidade; é
apenas esta sensação de que há pessoas, um monte delas, que estão juntas nessa.
Que estão no seu time. Quando a conta é paga e você fica na mesa. Quando são quatro
da manhã e ninguém vai para a cama. Aquela noite com o violão. Aquela vez em
que fizemos, fomos, vimos, rimos, sentimos. Os chapéus.
(...) Isso me assusta. Mais do que encontrar
o emprego certo ou a cidade ou um marido – tenho medo de perder esta rede em
que estamos. Este elusivo, indefinível, oposto da solidão. Esta sentimento que
sinto agora. [2]
O ensaio de Marina Keegan fez muito sucesso
nas redes sociais à época de sua publicação. Este ano, compilado pelos editores
da Simon & Schuster juntamente com outros textos da autora, foi convertido em
livro (The Opposite of Loneliness: Essays
and Stories, 2014, sem tradução para o português), que rapidamente passou a
figurar nas listas de best-sellers
dos Estados Unidos.
Muito desse sucesso deve-se menos à qualidade
dos textos em si que ao marketing involuntário
proporcionado pela tragédia que acometeu sua autora: Marina Keegan morreu
poucos dias após sua formatura em Yale num acidente de carro numa estrada em
Dennis, Massachusetts (seu namorado, Michael Gocksch, conduzia o veículo e
aparentemente dormira ao volante). É natural, portanto, que, sob a comoção da morte,
o juízo crítico se apiede. Só assim se pode explicar os elogios rasgados que o
crítico Harold Bloom, que foi seu professor em Yale, fez ao livro.
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Marina Keegan com seus pais em sua formatura na Universidade de Yale (EUA) em maio de 2012. Dias depois Marina morreria num trágico acidente de carro em Massachusetts. |
De fato, observando-se a prosa de Marina
Keegan, nota-se de imediato que seu texto carece de maturidade. Algumas de suas
observações são até perspicazes, como em “Even Artichokes Have Doubts”, reportagem
que ela escreveu a respeito de como os graduandos em Yale ingressam na rotina
do mercado financeiro. Mas muitas das suas reflexões sobre a vida e as pessoas soam
pueris (ao menos para mim). Ela própria assina um texto chamado “The Ingenue”.
Assim, o grande problema de um livro como The Opposite of Loneliness: Essays and Stories
não é a falta de talento da autora, mas sim a falta de tempo. Marina Keegan,
que tinha indiscutível habilidade literária, ainda tinha muito que evoluir – e seria
formidável assistir a essa evolução. Infelizmente, sua morte precoce aos 22
anos de idade impediu em definitivo seu amadurecimento como escritora.
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A jovem escritora Marina Keegan (1990-2012). |
Dessa maneira, parece-me ainda valiosa a
observação do editor Jack Hitt que, em artigo intitulado “Remembering Marina
Keegan”, publicado na revista The New Yorker poucas semanas depois do acidente
que ceifou a vida da jovem estudante, sentenciou: “Para sua família e amigos, a
dor é íntima e pessoal. Mas para alguns em nosso campo – produtores e editores,
jornalistas e escritores, a perda de Marina é um tipo diferente de tragédia.
Perdemos um talento antes de chegarmos a conhecê-lo.”
Marina Keegan era exatamente isto: uma estudante
talentosa que, após concluída sua graduação, tinha um futuro intelectualmente promissor
pela frente. Tinha. Pois a morte trágica impediu-a de lapidar seu talento. Uma
pena, porque The Opposite of Loneliness:
Essays and Stories é ainda um
legado muito pequeno para uma mente literária pujante pelas ideias, mas
claudicante pelo estilo imaturo.
Notas:
[1] Tradução minha.
[2] Tradução minha.
[3] Abaixo o
leitor confere a versão original, em inglês, do ensaio “O Oposto da Solidão”,
publicado no Yale Daily News em maio de 2012.
“We don’t have a word for the opposite of
loneliness, but if we did, I could say that’s what I want in life. What I’m grateful and
thankful to have found at Yale, and what I’m scared of losing when we wake
up tomorrow and leave this place.
It’s not quite love and it’s not quite
community; it’s just this feeling that there are people, an abundance of
people, who are in this together. Who are on your team. When the check is paid
and you stay at the table. When it’s four a.m. and no one goes to bed. That
night with the guitar. That night we can’t remember. That time we did, we went,
we saw, we laughed, we felt. The hats.
Yale is full of tiny circles we pull around
ourselves. A cappella groups, sports teams, houses, societies, clubs. These tiny groups
that make us feel loved and safe and part of something even on our loneliest
nights when we stumble home to our computers — partner-less, tired, awake. We
won’t have those next year. We won’t live on the same block as all our friends.
We won’t have a bunch of group-texts.
This scares me. More than finding the right job or city or spouse – I’m
scared of losing this web we’re in. This elusive, indefinable, opposite of
loneliness. This feeling I feel right now.
But let us get one thing straight: the best
years of our lives are not behind us. They’re part of us and they are set for
repetition as we grow up and move to New York and away from New York and wish
we did or didn’t live in New York. I plan on having parties when I’m 30. I plan
on having fun when I’m old. Any notion of THE BEST years comes from clichéd
“should haves…” “if I’d…” “wish I’d…”
Of course, there are things we wished we did:
our readings, that boy across the hall. We’re our own hardest critics and it’s easy
to let ourselves down. Sleeping too late. Procrastinating. Cutting corners.
More than once I’ve looked back on my High School self and thought: how did I
do that? How did I work so hard? Our private insecurities follow us and will
always follow us.
But the thing is, we’re all like that. Nobody wakes up when they
want to. Nobody did all of their reading (except maybe the crazy people who win
the prizes…) We have these impossibly high standards and we’ll probably never
live up to our perfect fantasies of our future selves. But I feel like that’s
okay.
We’re so young. We’re so young. We’re twenty-two years old. We have so
much time. There’s this sentiment I sometimes sense, creeping in our collective
conscious as we lay alone after a party, or pack up our books when we give in
and go out – that it is somehow too late. That others are somehow ahead. More
accomplished, more specialized. More on the path to somehow saving the world,
somehow creating or inventing or improving. That it’s too late now to BEGIN a
beginning and we must settle for continuance, for commencement.
When we came to Yale, there was this sense of
possibility. This immense and indefinable potential energy – and it’s easy to feel
like that’s slipped away. We never had to choose and suddenly we’ve had to.
Some of us have focused ourselves. Some of us know exactly what we want and are
on the path to get it; already going to med school, working at the perfect NGO,
doing research. To you I say both congratulations and you suck.
For most of us, however, we’re somewhat lost in
this sea of liberal arts. Not quite sure what road we’re on and whether we should have taken it.
If only I had majored in biology…if only I’d gotten involved in journalism as a
freshman…if only I’d thought to apply for this or for that…
What we have to remember is that we can still do
anything. We can change our minds. We can start over. Get a post-bac or try
writing for the first time. The notion that it’s too late to do anything is
comical. It’s hilarious. We’re graduating college. We’re so young. We can’t, we
MUST not lose this sense of possibility because in the end, it’s all we have.
In the heart of a winter Friday night my
freshman year, I was dazed and confused when I got a call from my friends to
meet them at EST EST EST. Dazedly and confusedly, I began trudging to SSS, probably the point on
campus farthest away. Remarkably, it wasn’t until I arrived at the door that I
questioned how and why exactly my friends were partying in Yale’s
administrative building. Of course, they weren’t. But it was cold and my ID
somehow worked so I went inside SSS to pull out my phone. It was quiet, the old
wood creaking and the snow barely visible outside the stained glass. And I sat
down. And I looked up. At this giant room I was in. At this place where
thousands of people had sat before me. And alone, at night, in the middle of a
New Haven storm, I felt so remarkably, unbelievably safe.
We don’t have a word for the opposite of
loneliness, but if we did, I’d say that’s how I feel at Yale. How I feel right now.
Here. With all of you. In love, impressed, humbled, scared. And we don’t have
to lose that.
We’re in this together, 2012. Let’s make something happen to this world.”
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