Há algum tempo, em conversa com algumas
amigas no trabalho, fui questionado se assistia a comédias românticas.
Disse-lhes que sim. Minhas interlocutoras, então, visivelmente surpresas,
afirmaram que minha imagem social de crítico rigoroso impunha-lhes o
sobressalto, já que “comédias românticas” são filmes “água com açúcar”. Segundo
elas, eu não me encaixo no perfil de um espectador desse tipo de
longas.
De fato, elas têm razão. Não sou do tipo que
assiste a muitas comédias românticas. Prefiro muito mais um bom faroeste. Mas preferências pessoais não devem tolher os olhos do
crítico. Quem se deixa engessar pelo gosto, corre o risco de nunca experimentar
o fascínio da descoberta duma grande obra cinematográfica. De outra banda, há o aspecto pessoal. Tive
uma namorada que adorava comédias românticas – e fazia questão que eu a acompanhasse
ao cinema para assistir a esse gênero de filmes. É aquela velha história: um namoro, para dar certo, implica
concessões de lado a lado. Eu a convidava para assistir à minha coleção de DVDs
da Deutsche Grammophon com as gravações das sinfonias de Beethoven, sob a
regência do magnífico Herbert von Karajan, e ela me levava ao cinema para
assistir às comédias românticas. Parecia-me justo.
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Humphrey Bogart, Audrey Hepburn e William Holden formam o triângulo amoroso que conduz a trama de "Sabrina", de Billy Wilder. |
No entanto, a audiência desses filmes "água com açúcar" nunca me impediu de deitar-lhes um olhar crítico rigoroso. Submetidos a esse
juízo, admito: era difícil aturar a sua maioria. Quase sempre eram histórias
românticas, a envolver um casal apaixonado em busca do amor imorredouro. No meio
de um enredo insípido, que o mais das vezes calcava-se na exploração da beleza
dos seus protagonistas e numa trilha sonora composta propositalmente em tom
meloso, surgiam algumas piadas, como que a justificar a ideia de uma “comédia”
suavizada pela linha do romance. Em alguns filmes, os gracejos até funcionavam e faziam-me rir;
noutros nem isso. No final, minha satisfação principal era ver minha ex-namorada
feliz. E só.
É evidente que o fato de os estúdios de
Hollywood atualmente produzirem comédias românticas em escala industrial, a maioria delas
muito ruins, não arrefeceu a minha verve de pesquisador da arte. Movido pela curiosidade, passei a procurar comédias
românticas que eu pudesse considerar exemplos genuínos de cinema de qualidade
dentro dum gênero tão maltratado. Foi assim que descobri Sabrina, de Billy Wilder.
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Sabrina (Audrey Hepburn) e Linus (Humphrey Bogart) dançam em cena de "Sabrina", de Billy Wilder. |
Sabrina é um filme de 1954.
Apesar de dirigido por Billy Wilder, um dos grandes diretores da “Era de Ouro” de
Hollywood, costuma ser lembrado pela sua protagonista: a atriz belga Audrey
Hepburn, que se tornou internacionalmente um ícone de beleza e estilo. Com efeito, não foram poucas as vezes que ouvi alguém dizer que "Sabrina é o filme da Audrey".
A história de Sabrina não é nem um pouco original. Hepburn interpreta Sabrina
Fairchild, a moça pobre, filha do chofer da rica e tradicional família de
industriais Larrabee. Ela mora, juntamente com seu pai, na luxuosa propriedade
onde dois irmãos bem diferentes convivem. De um lado, David Larrabee (William
Holden) encarna o típico playboy; ele ama carros velozes e seu esporte favorito
é conquistar (belas) mulheres. Em sentido diametralmente oposto, apresenta-se
Linus Larrabee (Humphrey Bogart), o primogênito responsável e workaholic, um homem brilhante nos
negócios e frio como um cubo de gelo. Sabrina é apaixonada por David desde a
infância. Mas o mulherengo bonitão despreza-a. Na cena inicial do filme, ele
chega a ser cruel ao insinuar que ela não era “ninguém”.
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Sabrina (Audrey Hepburn) encontra David (William Holden), seu grande amor de infância. |
Qual a típica heroína romântica, Sabrina
sofre pelo seu amado. Sofre tanto e tão intensamente, que tenta suicidar-se
aspirando o gás que sai do escapamento dos carros da garagem sobre a qual dorme
seu pai. Mas sua tentativa fracassa, interrompida pelo sisudo Linus, que assim
a impede de morrer como uma doudivana apaixonada.
No dia seguinte, estimulada por seu pai,
Sabrina parte para Paris, onde participará dum curso de culinária francesa. Na
capital francesa, sua vida muda quando conhece o barão St. Fontanel (Marcel
Dalio), um homem rico e distinto, que a ajuda a transformar-se numa autêntica
dama parisiense.
É essa Sabrina transformada pelos ares de
Paris - educada, refinada e cheia de estilo - que retornará à mansão dos
Larrabee em Long Island dois anos depois. Imediatamente ela desperta a paixão de
David, o homem que secretamente sempre amou. O problema é que o playboy está de
casamento marcado com Elizabeth Tyson (Martha Hyer), um matrimônio que é bom
para os negócios da família. O fleumático Linus, então, intervém para impedir
que o romance de David e Sabrina estrague seus planos de expansão industrial. Arquitetando
um plano para afastar o casal, Linus passa a conviver diretamente com Sabrina.
Sem perceber, ele próprio vai se apaixonando pela filha do chofer.
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A química do casal interpretado por Bogart e Hepburn é um dos aspectos mais cativantes do amor romântico em "Sabrina", de Billy Wilder. |
Como se vê, nesse enredo simples, temos o
arquétipo da "Cinderela moderna". Não há nada de novo no roteiro baseado na peça de
Samuel A. Taylor. E a história, se conduzida por mãos inábeis, fatalmente
estaria condenada ao esquecimento como tantas outras baseadas no mesmo mote.
Todavia, o filme é dirigido por Billy Wilder, o diretor que marcou época na
“Era de Ouro” com “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset
Boulevard, 1950), onde já demonstrara sua capacidade para a condução de
dramas. Talentoso, Wilder consegue entreter de maneira inteligente a partir do roteiro previsível dum conto de fadas. O resultado é um filme delicioso, que concilia romance e comédia
de forma mui competente.
Grande parte do sucesso da proposta do
diretor reside no triângulo amoroso formado pelos protagonistas. Hepburn,
apesar de muito jovem, brilha no papel de Sabrina com seus olhos grandes, expressivos, e seu rosto
angelical. Ela encarna com mestria a moça doce e sensível, romântica ao extremo
(não nos esqueçamos de que ela tentou até o suicídio!), que, apesar do “banho
de loja” que tomou em Paris, continua a exibir a mesma fragilidade diante do
amor. Para usar uma expressão popular, Sabrina Fairchild é aquilo que se
poderia chamar de “manteiga derretida”, o que fica bem evidente no diálogo travado
com seu pai, Thomas Fairchild (John Williams), logo após seu retorno de Paris:
Thomas Fairchild: He's still David
Larrabee, and you're still the chauffeur's daughter, and you're still reaching
for the moon.
Sabrina Fairchild: No, father. The moon's reaching
for me. [1]
Ao lado da protagonista, Holden empresta seu
carisma ao playboy que interpreta, tornando-o divertido sem ser canastrão. E,
claro, desnecessário dizer que a atuação sempre sólida de Humphrey Bogart
constitui o contraponto necessário ao romantismo inconteste de Sabrina: ele não é apenas o industrial frio e magoado com o amor; ele representa o coração de
pedra que a doçura de Sabrina há de amolecer.
Sabrina
Fairchild: Maybe you should go to
Paris, Linus.
Linus Larrabee: To Paris?
Sabrina Fairchild: It
helped me a lot. Have you ever been there?
Linus Larrabee: [thinks]
Oh, yes. Yes. Once. I was there for thirty-five minutes.
Sabrina Fairchild: Thirty-five
minutes?
Linus Larrabee: Changing
planes. I was on my way to Iraq on an oil deal.
Sabrina Fairchild: Oh, but
Paris isn't for changing planes, it's... it's for changing your outlook, for...
for throwing open the windows and letting in... letting in la vie en rose.
Linus Larrabee: [sadly] Paris
is for lovers. Maybe that's why I stayed only thirty-five minutes. [2]
Mas Sabrina
é uma comédia romântica que, não obstante sua sutileza, desafia temas de forte
conteúdo moral. É o que se percebe no temor que sente Linus em deixar-se
enamorar por uma moça como Sabrina Fairchild. Avaliando a relação de modo racional,
ter-se-ia de enfrentar um fato duplamente escandaloso: o do homem rico, filho
de uma das mais tradicionais famílias de Nova York, envolvido com a empregada;
mas também o do homem mais velho que se interessa por uma mulher bem mais nova.
Convenhamos que, para um filme de 1954, esses temas eram tabus dignos duma
sociedade conservadora. Nesse sentido, a afirmação de Thomas Fairchild é sutil,
porém duma perspicacidade ímpar:
Thomas Fairchild: Democracy can be a wickedly unfair thing,
Sabrina. Nobody poor was ever called democratic for marrying somebody rich.[3]
Todos esses elementos, somados, convergem
para que Sabrina deixe de ser apenas mais uma “história da
Cinderela moderna” como tantas outras a que já nos habituamos a ver. O filme
dirigido por Billy Wilder tem o mérito de divertir de maneira inteligente, com
personagens bem construídos, diálogos inspirados (a justificativa que Linus usa
para dar um beijo em Sabrina, a afirmar que “está tudo em família”, é
impagável), uma protagonista carismática (Audrey Hepburn empresta a Sabrina um
jeitinho meigo que é encantador, diria até irresistível). Acima de tudo, o filme acerta na
trilha sonora, que se encaixa com perfeição à trama da moça pobre e romântica que
tem sua vida mudada para sempre em Paris (“La Vie En Rose”, de Edith Piaf e
Louis Gugliemi, e “Isn’t It Romantic?”, de Richard Rogers com letra de Lorenz
Hart, compõem o material sonoro que embala delicadamente o desenvolvimento do triângulo amoroso).
Portanto, para todos aqueles que procuram uma
comédia romântica inteligente, Sabrina, de Billy Wilder, é um filme
mais do que recomendado. É o tipo de divertimento que vale a pena compartilhar com a namorada, especialmente se ambos os espectadores estiverem dispostos a abrir a "janela dos seus corações", mudar suas perspectivas e deixar-se enxergar "a vida cor de rosa", tal como propõe a doce e adorável Sabrina.
Notas:
[1] Tradução minha:
Thomas Fairchild: Ele ainda é David Larrabee, e
você ainda é a filha do chofer, e você ainda está tentando alcançar à lua.
Sabrina Fairchild: Não, pai. A lua é que está
tentando me alcançar.
[2] Tradução minha:
Sabrina Fairchild: Talvez você devesse ir a Paris, Linus.
Linus Larrabee: A Paris?
Sabrina Fairchild: Isso me
ajudou muito. Você já esteve lá?
Linus Larrabee: Ah, sim.
Sim. Uma vez. Fiquei por trinta
e cinco minutos..
Sabrina
Fairchild: Trinta
e cinco minutos?
Linus
Larrabee: Fazendo
escala. Eu estava a caminho de um negócio de petróleo no Iraque.
Sabrina Fairchild: Oh, mas
Paris não é para fazer escala. É para mudar
suas perspectivas, para abrir as janelas e poder ver… ver a vida “cor de rosa”.
Linus
Larrabee: Paris é para os apaixonados. Vai ver foi por isso que
fiquei apenas trinta e cinco minutos.
[3] Tradução minha:
Thomas Fairchild: A
democracia pode ser uma coisa perversamente injusta, Sabrina. Ninguém que seja pobre
foi chamado de “democrático” por se casar com alguém rico.
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