Hoje uma das poucas pessoas que me são próximas nesta vida, sabedora da minha
paixão pela música erudita como pela ciência, enviou-me, via aplicativo para
telemóvel denominado “whatsapp”, o link
para um vídeo musical no Youtube. A pessoa dizia-se maravilhada; apontava que
eu haveria de maravilhar-me com aquilo também.
Intrigado, pus-me a investigar.
Acesso o link. Ponho-me diante da suposta maravilha:
o registro sonoro daquela que seria a única gravação conhecida de Albert
Einstein enquanto violinista. Ouço-a. Estou atento aos detalhes da execução.
Deixo-me surpreender provisoriamente pela sua notável qualidade. Malgrado o som
deficiente, prejudicado por certo pela baixa qualidade da gravação, tenho
consciência de que ali está um violinista de talento indiscutível. Seria mesmo
Albert Einstein?
A resposta é não. Dizê-lo custou-me mais que
perceber a farsa. Ao assistir ao vídeo, deu-me pena da pessoa que mo enviou. Ela o fez de
boa-fé. Decerto supôs que sou um cultor da música erudita (suposição correta) e que, assim agindo,
impressionar-me-ia de maneira positiva. Não funcionou. Após ouvir a gravação,
notei tratar-se de mais um embuste. Ou, para usar do conhecido jargão da
internet, um hoax.
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Albert Einstein empunha seu violino. |
É notória a ligação de Albert Einstein com a
música. Nascido na Alemanha, país onde a educação musical é acessível e a
música erudita é valorizada como patrimônio cultural do povo germânico (quem já
teve o privilégio de frequentar o circuito erudito da Alemanha sabe do que
estou a falar), o físico alemão teve aulas de violino. É sabido que tocava o
instrumento. No entanto, não há registro de que tenha deixado gravação
conhecida. Nem poderia fazê-lo, pois ele próprio se considerava um mero
"músico amador", e os contemporâneos que o viram tocar apontavam-no
como um violinista claudicante, de nível técnico medíocre. Por isso, tornou-se
fácil intuicionar que o vídeo do Youtube é falso.
Na verdade, qualquer ouvinte experiente de
música erudita perceberia que, dado o apuro técnico com que a peça foi
executada, o seu registro jamais poderia ser creditado a um músico amador. A
gravação do “Andantino sostenuto e cantabile”, segundo andamento da Sonata em Si bemol
maior (K. 378), de W. A. Mozart, esbanja técnica. Percebe-se o domínio seguro
do arco na inflexão das notas na escala. Há cor e sentimento. Numa palavra: só
poderia ser mesmo obra de músico profissional! E dos bons!
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O violinista húngaro Carl Flesch (1873-1944). |
Aqui cabe um parêntese: quando eu falo de “profissionalismo”
em sede de música erudita, o referencial do qual me valho não é o juízo vulgar,
comumente associado à ideia do sujeito que “vive de música”. Esta é uma acepção
corrente na música popular, sobretudo na música pop, cujo nível de qualidade é quase sempre baixíssimo, a engendrar
um terreno fértil para o artista picaresco, que, se apresenta o domínio de meia
dúzia de acordes do dicionário básico, logo passa a ser idolatrado pelo fã
idiotizado, sem pudores em tachar de “gênio da música” o ídolo de fim de
semana, cuja obra musical dura, o mais das vezes, uma temporada – ou, como se
quer no Brasil, o “período do carnaval”. À parte a patifaria da arte
popularesca, a música erudita erige o patamar de profissionalismo a um grau de
excelência; com efeito, pressupõe-se alguém que dedicou toda sua vida aos
estudos musicais. Só assim é possível atingir o nível técnico elevadíssimo que
está na raiz daquilo que se pode considerar um “músico erudito profissional”.
Sendo assim, diante da gravação atribuída a
Einstein no Youtube, outra não poderia ser minha reação que não fosse a do sobressalto perante a ingenuidade do ouvinte comum. Eis a sensação imediata que
tive. Em seguida, impulsionado pelo hoax
faceto, flagrei-me a matutar: “Se Einstein tivesse sido capaz de tocar violino
nesse nível técnico, ele não só não teria desenvolvido a Teoria da
Relatividade, pilar da Física Moderna, como sequer teria se tornado
cientista. Tivesse Einstein tanto talento musical, o mais provável é que se
tivesse tornado violinista e seguido carreira na música como concertista”. Na
verdade, a gravação pertence ao célebre violinista Carl Flesch (1873-1944),
renomeado professor húngaro pelo sistema de estudo de escalas que desenvolveu, e
foi resgatada pelo selo britânico "Symposium Records", quando do lançamento das
suas "Historical Recordings". As gravações de Flesch são datadas de 1905 a 1936.
Então fica a sugestão, meu caro leitor: da
próxima vez que alguém lhe apontar tal ou qual registro sonoro, atribuindo-a a algum
personagem famoso da história, cumpre ter cautela, para não se decepcionar.
Mais cautela ainda se se tratar de música erudita, que, no nosso mundo de majoritário baixo nível cultural, é arte para poucos
ouvidos exigentes e para muito poucos musicistas executarem a contento.
Superado esse infortúnio, ao menos posso
dizer que a gravação sugerida me permitiu ouvir boa música pelo telemóvel. A
sonata para violino em Si bemol maior, de Mozart, é linda, em que pese não tenha
sido o cientista Albert Einstein quem a gravou. Acrescento que não deixa de ser
curioso – e isto é o mais divertido – saber que alguém deu-se ao trabalho de
criar, em meio a tantas estupidezes na forma de hoax que se espalham pela internet, um embuste dedicado à música erudita e a um personagem
conhecido do mundo científico. Infelizmente, é uma fraude que sucumbe com
facilidade diante dos ouvidos apurados dum ouvinte erudito mais experiente.
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